A impossibilidade de punição eterna
Do livro: O Céu e o Inferno – Allan Kardec

Imaginemos um jovem de vinte anos, como muitos dos jovens de hoje, ignorante, com instintos viciosos, negando a existência de sua alma e de Deus, dado a comportamentos descontrolados e a cometer todos os tipos de perversidades, e depois, em um ambiente favorável, trabalhando, aprendendo, corrigindo-se gradualmente até se tornar um crente piedoso. Depois, em um ambiente favorável, esse jovem trabalha, é instruído, corrige-se gradualmente até se tornar um crente piedoso. Não é esse um exemplo palpável do progresso da alma durante a vida, um exemplo que se repete todos os dias? Esse homem morre na velhice como um santo, e certamente sua salvação está garantida. No entanto, qual teria sido seu destino se um acidente o tivesse levado à morte quarenta ou cinquenta anos antes?
Naquela ocasião, ele cumpriu todas as condições necessárias para sua condenação, de modo que, uma vez condenado, toda forma de progresso lhe seria vedada. Estamos, portanto, diante de um homem que só foi salvo porque viveu mais tempo e que, de acordo com a doutrina da punição eterna, estaria perdido para sempre se tivesse vivido menos, talvez como resultado de um acidente fortuito. Uma vez que sua alma foi capaz de progredir em um determinado momento, por que não poderia ter sido capaz de progredir também após a morte, se uma causa além de seu controle o tivesse impedido de fazê-lo durante sua vida? Por que Deus deveria ter negado a ele os meios? O arrependimento, embora atrasado, não teria deixado de acontecer. Por outro lado, se desde o momento de sua morte uma condenação irremissível lhe tivesse sido imposta, seu arrependimento teria sido infrutífero por toda a eternidade, e sua capacidade de progredir teria sido anulada para sempre.
O dogma da eternidade absoluta da punição é, portanto, incompatível com o progresso das almas, ao qual ele opõe uma barreira intransponível. Os dois princípios se anulam, pois a existência de um implica necessariamente a aniquilação do outro. Qual dos dois é real? A lei do progresso realmente existe: não é uma teoria, mas um fato confirmado pela experiência; é uma lei da natureza, uma lei divina, imprescritível. Portanto, se ela existe e não pode ser conciliada com a outra, então a outra não existe. Se o dogma da eternidade da punição fosse verdadeiro, Santo Agostinho, São Paulo e tantos outros nunca teriam visto o Céu se tivessem morrido antes de fazer o progresso que os levou à conversão.
A esse último argumento, eles responderão que a conversão desses personagens santos não foi o resultado do progresso da alma, mas da graça concedida a eles e pela qual foram tocados.
Entretanto, isso é um jogo de palavras. Se esses santos praticaram o mal e depois o bem, isso significa que eles melhoraram. Por que Deus teria concedido a eles, como um favor especial, a graça de se corrigirem? Por que a eles e não a outros? Sempre nos respondem com a doutrina do privilégio, que é incompatível com a justiça de Deus e com o amor que Ele concede igualmente a todas as criaturas.
Segundo a doutrina espírita, de acordo com as próprias palavras do Evangelho, com a lógica e com a mais rigorosa justiça, o homem é filho de suas obras, tanto nesta vida como após a morte. Ele nada deve à graça. Deus o recompensa pelos esforços que ele faz e o pune por sua negligência, enquanto ele persistir nela.