Depressão e suicídio na juventude

Falar sobre suicídio nunca é fácil, familiares, amigos e entes queridos ficam arrasados, muitas vezes com eternas perguntas sobre os motivos da decisão de acabar com a própria vida, a possível responsabilidade de alguém e até mesmo a culpa por não ter percebido a tempo. Esse cenário se torna ainda mais complexo e doloroso quando nos referimos a um jovem “com a vida toda pela frente”, alguém que deveria ter toda a vontade de viver, com um futuro promissor à distância, o que torna ainda mais difícil encarar o fato doloroso da perda de um ente querido e a incompreensão dos motivos que levaram nosso ente querido a tomar tal decisão.
Apesar desse quadro difícil, o aspecto mais importante é enfatizar a prevenção do suicídio, especialmente em adolescentes, pois eles são um importante grupo de risco. Isso se deve às condições sociais atuais, à pressão dos colegas, às redes sociais, aos cenários atuais de violência física e emocional e às provações espirituais que são assumidas durante a encarnação. De tal forma que, por meio da detecção precoce de sinais de alerta e da integração de uma vida espiritual, o suicídio pode ser prevenido, ajudando a encontrar um equilíbrio entre a vida mundana e a espiritual, dando sentido às provações desta encarnação e aprendendo com a dificuldade; o que não só ajudará o adolescente a sair mais forte, mas permitirá que ele evolua em seu caminho espiritual.
Aflições na vida presente
“As vicissitudes da vida são de dois tipos, ou, se preferir, têm duas origens muito diferentes que devem ser distinguidas: algumas têm sua causa na vida presente e outras fora dela”.
Por meio do enorme e valioso conhecimento da doutrina espírita, foi possível compreender que cada uma das situações que vivenciamos durante nossa encarnação foi planejada por nós mesmos com o único propósito de nos ajudar a crescer espiritualmente, de nos mostrar a enorme variedade de emoções e situações que nos permitirão nos tornarmos seres mais conscientes e nos alinharmos com o amor. No entanto, as provações da vida às vezes parecem intransponíveis, um pesadelo do qual não é possível escapar, gerando medo, dor, sensação de vazio, deixando de ter motivação, expectativas, esperanças e, na pior das hipóteses, o único interesse que se tem é o de buscar a fuga, a qualquer custo, sendo a morte a única alternativa que parece existir para “parar de sofrer”.
Mas o que acontece quando o cenário não é tão agressivo, quando a vida “corre” tranquilamente, com pequenos obstáculos facilmente administráveis? Nesses casos, a explicação dada pela lei da reencarnação é uma aliada na compreensão e no enfrentamento dessa questão, detalhando que, em encarnações anteriores, estivemos envolvidos em “débitos” anteriores à vida atual, ou em consequências originadas nesta vida. Assim, o sofrimento dos espíritos, como adolescentes ou crianças, muitas vezes é produto das experiências de existências anteriores.
A compreensão da lei da reencarnação nos motiva a não nos acomodarmos e deixarmos as situações seguirem seu curso devido à falta de maturidade psicológica desses espíritos em desenvolvimento. Pelo contrário, devemos colocar em prática todas as medidas e ferramentas necessárias para apoiar os adolescentes nas situações que mais os afetam e nas quais são mais vulneráveis, ajudando-os a desenvolver um senso de introspecção e autocrítica com base no amor-próprio e no amor ao próximo, gerando habilidades que os levarão à resiliência, à autoconfiança e à fé; elementos que, sem dúvida, serão pilares em todas as provas apresentadas na encarnação.
O que pode motivar o suicídio na infância ou na adolescência?
Identificar o que desencadeia a falta de vontade de viver de uma pessoa é muito complexo, pois a personalidade, as circunstâncias e as condições sociais e econômicas de cada indivíduo são completamente diferentes. Apesar disso, há autores que se esforçaram para tentar identificar fatores “chave” que podem desencadear a ideação suicida. Por exemplo, o Dr. A Aguila (2012) fala sobre a população infantil e o suicídio, em que a maior porcentagem de crianças com risco de suicídio apresentava duas condições: “A primeira é que a maior porcentagem de crianças tinha um alto nível de fantasia e baixa tolerância à frustração”, e acrescenta: “sua percepção da realidade nunca era verificada com o que era realmente real”, e acrescenta: “elas agiam de acordo com ideias ou tentativas suicidas para evitar algo mais catastrófico para elas”. Outros fatores comentados pelo autor são a impulsividade, a ambivalência e a rigidez.
Ao mesmo tempo, há situações de vital importância quando se fala em suicídio, que são os maus-tratos, especialmente emocionais e psicológicos, por parte dos cuidadores primários, ou seja, pais, avós e familiares próximos. Nesses casos, punições excessivas, responsabilidades excessivas para a idade da criança ou do adolescente, isolamento, desqualificação, bem como um clima de violência cotidiana entre os pais são fatores de risco para a ideação suicida.
Com isso, entendemos que o bulling deve ser compreendido sob dois aspectos: o do agressor ou agressor e o do agredido que sofre o bullying.
Identificação dos sinais de suicídio
Entretanto, para agir em tempo hábil, é essencial identificar os sinais que indicam que o adolescente está em risco. Como sabemos, a adolescência é uma fase em que se busca a autoafirmação por meio da ruptura de padrões aprendidos e, portanto, é comum que os adolescentes se distanciem de figuras de autoridade, como pais, professores e tutores.
Comportamentos como a busca de espaço “solitário” e o envolvimento em atividades independentes por parte da família são “nosso pão com manteiga” quando temos um adolescente em casa. Mesmo assim, há certas diretrizes que podem nos ajudar a superar esse período.
A análise do ambiente em que o adolescente se desenvolve é fundamental no momento da prevenção, pois, uma vez identificados os fatores “desencadeantes” (geralmente há mais de um), é possível intervir e procurar mediar a situação.
Inicialmente, devem ser avaliadas questões de dinâmica familiar, comunicação com irmãos e pais, a presença de uma figura de autoridade com quem haja comunicação e que possa ser o “ponto de apoio” do adolescente em momentos difíceis. A presença de conflitos, violência física, econômica, psicológica ou sexual pode claramente fazer com que o adolescente sinta que está “sozinho”.
Igualmente importante é o relacionamento com o grupo de colegas, uma vez que os amigos e colegas de escola são “vitais” na fase da adolescência, pois representam o grupo de referência para a formação da personalidade, hábitos, gostos e costumes.
Bullying e suicídio na adolescência:
Os pais e as famílias precisam estar cientes das formas de bullying, pois quanto mais conhecimento tivermos sobre as situações em que esses comportamentos ocorrem, maiores serão as chances de preveni-los ou interrompê-los antes que levem a consequências infelizes.
Há o cyberbulling, que consiste na agressão e no uso inadequado de redes sociais, telefonia via Internet etc. Sexting, que manifesta sua agressão por meio de fotografias e vídeos de situações privadas e íntimas que são tornadas públicas sem o consentimento da pessoa ou das pessoas. Homofobia, que consiste na discriminação contra pessoas com identidade de gênero ou orientação sexual diferente da heterossexual. Assédio racista, nessa situação a agressão é dirigida a minorias étnicas ou sociais.
Como detectar um adolescente que está sofrendo violência?
O comportamento e o humor das crianças vítimas de bullying tornam-se irritáveis, tensos, estranhos, tristes,... elas se isolam, ficam assustadas, esquecidas, podem parar de se relacionar com os amigos, evitam reuniões e festas, fingem estar doentes, parecem perdidas e começam a passar muito tempo sozinhas, por isso é essencial que os pais fiquem atentos a qualquer um desses sinais.
Além disso, há outras circunstâncias sociais, econômicas e societárias que podem ser tão agressivas e estressantes, que também são fatores que podem contribuir para a ideação suicida, como viver em zonas de guerra ou de conflito, violência explícita, perda dos pais ou de entes queridos próximos, falta de atendimento às necessidades básicas, inclusive moradia, roupas e meios de subsistência, são exemplos desses fatores.
Em todas essas circunstâncias, é essencial manter contato próximo e íntimo com o adolescente, tanto quanto ele permitir, e procurar ajuda especializada para qualquer um dos sinais mencionados acima. É sempre bom ter em mente que prestar atenção aos pequenos sinais pode fazer toda a diferença quando se trata de prevenir o suicídio.
A espiritualidade como um recurso
De Cerqueira A. (2011) “Toda pessoa que comete suicídio, pelo menos a maioria delas, comete suicídio para escapar da dor de uma situação”.
Lembremos que os adolescentes não “aparecem” em nossas vidas de um dia para o outro; pelo contrário, os laços e relacionamentos desenvolvidos durante a infância serão fundamentais para a personalidade de cada indivíduo, portanto, manter um relacionamento próximo, afetuoso e sincero, na medida em que o adolescente permitir, gerará um ambiente no qual o adolescente saberá que, em qualquer eventualidade da vida, poderá recorrer a nós.
Fomentar o aspecto espiritual também será fundamental para os momentos difíceis, não apenas na adolescência, mas ao longo da vida, pois, como já experimentamos, há situações que fogem ao nosso controle, provações da vida das quais será impossível nos isolarmos e que exigirão força interior. Quando o ser humano mantém a consciência de que há uma lição em cada situação, inclusive nos momentos difíceis e desafiadores da vida, a prova é assumida com outros olhos, com a percepção de que, além da dor, “há algo mais”, fazendo com que a atenção, a energia e a consciência se voltem para identificar o que se aprende com a prova, o que de forma alguma elimina a dor, mas a torna mais controlável, entendendo que há uma razão maior para passar por aquele momento.
No caso dos adolescentes, embora eles estejam em um estágio de rebeldia absoluta, e essa ruptura com os ensinamentos anteriores leve a dúvidas e questionamentos sobre os fundamentos espirituais aprendidos na infância, é muito comum que eles procurem “desafiar” esses ensinamentos, colocando-os à prova em momentos difíceis.
Justamente nesse momento, os ensinamentos tradicionais de doutrinas rígidas com figuras de “deuses” que punem ou toleram o comportamento dos encarnados serão fortemente criticados, sendo mal avaliados pelo adolescente, o que muitas vezes leva ao abandono e ao rompimento com essas correntes.
No caso de adolescentes que foram incentivados a desenvolver seu lado espiritual, onde não foi incentivada uma doutrina espiritual mediada por recompensas e punições, mas onde foram incentivados a refletir sobre a evolução espiritual, onde a encarnação foi planejada para o próprio desenvolvimento da alma, ela será questionada, assim como todos os aspectos da vida, mas será mais provável que seja de ajuda em tempos difíceis, que sirva de abrigo em tempos sombrios e que ajude a ver a luz na escuridão.
Ao colocá-lo à prova, o adolescente terá ferramentas adicionais para enfrentar as situações difíceis do mundo, o que estimulará a reflexão e a evolução pessoal. Além disso, e como pais comprometidos, os adultos que estão compartilhando o caminho com esse adolescente também teriam o compromisso de rever o motivo do teste, mantendo uma atitude amorosa, observando as necessidades do mundo físico, emocional e espiritual, identificando as situações que estão fora do nosso alcance e buscando apoio em cada um dos aspectos em que percebo e entendo que “meu” adolescente precisa de apoio, esgotando os recursos para ajudar em seu caminho de evolução pessoal.